"Já ouvi muito falar nesse tal de Michael Jackson. Minha irmã mais velha ainda coleciona algumas fotografias e cds desse cantor. Mas eu mesmo não sei muito bem quem é esse cara. Hoje, ao me deparar com sua fotografia pendurada na banca de jornal ao lado da fotografia do Jimi Hendrix, foi para ela que preferi olhar.
Sempre me intrigou o fato de ver algumas fotografias dele como um homem preto e outras como um homem branco. Será que uma pessoa pode ser preto e branco ao mesmo tempo? Porque será que ele mudou de cor e eu, que sou zuado pelos meus amigos na escola todos os dias por causa do meu "cabelo ruim", não posso também ser branco?
Minha mãe sempre me disse que é assim mesmo, que a gente nasceu com essa "cor de bosta" e que temos que cortar nosso cabelo bem curtinho para não sofrermos chacotas. Mas esse tal de Michael Jackson deve ter sido mais esperto. Ele foi logo se pintando de branco para resolver esse problema de vez.
Será que um dia eu poderei ser famoso e bonito como ele?"
Fui capaz de ouvir o pensamento daquele menino através do seu olhar atento ao poster do Michael Jackson. E parece que o discurso racista, já incorporado pela maioria da sociedade brasileira, de que só alisando o cabelo ou o deixando bem curto, ou que eles nasceram com "cor de bosta", repetia-se na cabeça daquele menino. Como entender que um homem negro virou branco e que talvez por isso, ele era bonito e famoso? Porque ele quis ser branco?
Por mais quantos anos teremos que confundir nossas crianças negras? Por mais quantos anos a natureza negra, seus cabelos enrolados, sua pele preta, terão que ser consideradas sinônimos de pobreza, bandidagem ou gente feia? Por mais quantos anos iremos fechar os olhos para um país essencialmente negro e achar que não vivemos uma diferenciação de classe?
A luta de Zumbi continua.
Fato: Um menino negro olha atentamente um poster de Michael Jackson na banca de jornal
História: "preto ou branco", escrito por uma observadora meses depois