sábado, 19 de setembro de 2015

corpo de liberdade

O corpo descia até o chão no balanço do funk. O som era de carros e ônibus, buzinas e gritos de "é isso aí". Os rostos surpresos ou mostrando os dentes em uma risada.

A mulher magra, grávida de uns cinco ou seis meses, com fone de ouvido estilo dj, dança entre a Avenida Rebouças e a Rua Oscar Freire. Não contente em ficar na calçada, ela invadia a rua quando o farol fechava, como se estivesse dando um show.

O que ninguém sabia é que ao contrário do que parecia, nos fones de ouvido da mulher não havia música alguma. Na alegria enérgica de seu corpo, muita tristeza. Tinha sido abusada e gerado uma vida. Por ter problemas psiquiátricos, qualquer homem com má intenção poderia prejudicá-la.

Mulheres arrumadas e emperequetadas indo fazer seu tour consumista pela Oscar Freire, nem notavam a mulher. Homens mexiam com ela, mais uma vez a agredindo. E as pessoas do ponto de ônibus sentiam pena.

A mulher parecia não ver ninguém e não ouvir absolutamente nada. O que ela queria era dançar o corpo até não poder mais para tentar libertar toda tristeza do seu coração. Ela queria ser livre, ser respeitada. Mesmo que fosse só através de seu corpo.

Fato: mulher dança com fones de ouvido na esquina da Rebouças com a Oscar Freire.
História: "corpo de liberdade", escrita por uma observadora dias depois.

lei da rua, vida de mulher

A regra da rua é a regra de Exu. Sobrevive quem é forte, sai quem tem juízo e fortaleza interior, fica quem não luta.

- Eu quero saber do meu dinheiro que está aí no seu bolso.

A fala vitoriosa é da mulher de botas de salto, meia calça matadoura, jaqueta de onçinha, cara de menina moça e papo de mulher de vida. Os olhos vermelhos comprovam que a noite foi boa e longa. Os homens trabalhadores atentos e sedentos escutam com atenção os dizeres da moça. E ela com toda pompa do mundo, se coloca em primeiro plano.

Se afirma veementemente como quem conhece bem a lei da rua e a malandragem. Terminou a noite bem e com dinheiro no bolso. Em um lugar sem regras e sem destino, a cena transcorreu na minha frente em menos de um minuto e me pegou.

O rosto era de menina da roça, com traços finos e sardinha. Era bonita e tinha bom gosto. Parecia feliz e cansada. Será que ela faz isso porque gosta, porque precisa ou para sustentar algum vício?

Quantas meninas moças estão na rua se vendendo para ter dinheiro no bolso? Mulheres da noite no meio do caos e só elas mesmas para contar o que passam. E será que em algum momento da história foi diferente? Escravas negras e índias estupradas por homens brancos, meninas e sertanejas se prostituindo para sobreviver, adolescentes de favelas sendo mulher de malandro, mulheres no Centro da cidade ganhando a vida, sustentando vícios e se distanciando cada vez mais das relações humanas. Algumas engravidam e trazem mais uma vida para o mundão, sem que haja muita esperança.

Porque nós, mulheres, ainda sofremos tanta violência no mundo? Como sobreviver e não se entregar ao machismo?

Fato: Possível prostituta contando vantagem nas ruas do Centro.

História: "lei da rua, vida de mulher", escrita por uma observadora dias depois

07/11/2013