segunda-feira, 23 de abril de 2012

mãe


A menina de 5 anos sai da escola louca para contar todos os detalhes do seu dia. A mãe, atenciosa, lhe pergunta:
- Filha, o que é isso no seu cabelo?
- Eu pintei de rosa, mamãe.
- E todas as suas amigas também pintaram?
- Sim. A Janaína fez três rabinhos e pintou de verde. A Mônica fez duas tranças e pintou de azul, e eu também fiz rabinhos, igual a Janaína, mas pintei de rosa.

Por um instante, a mãe se preocupou com a tinta no cabelo da filha. Seria tóxica? Será que sai só com o shampoo? Mas preferiu não criticar a menina.
- Mamãe, amanhã nós vamos fazer uma nova brincadeira...
- Você não quer vir de shorts, neste calor?
- Não, mamãe, prefiro uma saia.

A menina já entendia sua feminilidade. Além dos cabelos rosas, queria usar saias, brincos e colares. Se sentia uma mulher. Não queria parecer menino e muito menos ficar perto deles.

A mãe, cuidadosa, gostava de respeitar as opiniões da filha. Pensava que ainda conseguiria vestir a filha como quissesse. Mas não. A geração de hoje cresce bem mais rápido. Com 5 anos, sua filha já era "fashion" e pintava o cabelo de rosa na escola.

Mas a mãe se preocupava um pouco. Será que a filha não vai aproveitar a infância? Será que já está tomada pelo consumismo e pela moda? Como impedir essa evolução tão rápida? Na época da mãe, não tinha como discutir que roupa usar com 5 anos. Usava a que tinha. Muito menos se pintava o cabelo de rosa. O máximo dos máximos era conseguir dormir na casa de uma amiga.
Todas estas inquietações passavam pela cabeça da mãe.

- Mãe, você está me ouvindo?

A mãe volta a olhar a filha e responde que sim. Neste instante, a menina abre um sorriso. A alegria da criança contagia a mãe e a tranquiliza. O que mais importa, além desse sorriso sincero e puro, esse olhar curioso de descoberta do mundo e a cumplicidade com que a filha lhe conta seu dia? Será que mais alguma coisa importa?

Fato: uma menina sai da escola, de cabelo rosa, contando seu dia para a mãe
História: "mãe", escrita por uma observadora dias depois

jovem


Nasce uma pessoa
Como se as células originárias do amor do pai e da mãe pudessem de novo existir
Como se a porta da vida e da energia pudessem de novo se abrir

Nasce outra pessoa
De um ciclo constante de nascer e morrer
Que nasce, floresce, mucha e morre
Que planta, semea e nasce de novo

Nasce um jovem
O jovem que sempre foi jovem
Mesmo quando não era mais tão jovem


Nasce uma nova pessoa
Da cura, do amor e da alegria
Como um brinde ao eterno ciclo
de vida e morte.



Fato: Células jovens começam a nascer depois de um auto-transplante
História: "jovem", escrita por uma observadora dias depois



nascimento


- Eu não pensavaaaaa te amar dessse jeituuuuuuuuuuuu...

Enquanto Guilherme Arantes cantava seus versos longos, com aquela empolgação de costume, o clima era tenso. Afinal, é só uma vez na vida que a gente tem a primeira filha.

"Será que está dando tudo certo?", pensava o pai apreensivo sentado na sala de espera, onde a única coisa que o acalmava, era aquela música, que até então ele achava super chata, mas que a partir daquele momento, se tornaria uma música importante da sua vida.

Dentro da sala do hospital, a mãe fazia força para aquela criança nascer. Ela nem imaginava, que do outro lado da porta do quarto tocava Guilherme Arantes. E nem pensava no pai apreensivo. Só, em fazer a sua filha nascer.

Finalmente, depois de horas, a criança nasce. Emocionada, a mãe pergunta ao médico:

- Ela é perfeita, doutor?
- Não...(silêncio) ...faltam os dentes - responde.

Ufa! Por um mílessímo de segundo a mãe entra em desespero ao imaginar a filha com problemas. Nasceu perfeita no momento mais sublime de toda nossa passagem. O nascimento da vida. 

A mãe sentiu uma confusão emocional, um misto de amor completo, com muito medo de não saber como cuidar daquele "ser" tão pequeno.

Depois de alguns dias, já se sentia mais preparada a encarar sua missão de mãe. Atenciosa e criando habilidades, a mãe vestia a filha com muito cuidado e atenção. Até que percebeu um buraquinho ao lado da orelha da filha. Faltaram algumas células, quem sabe, para que ela fosse perfeita.

Talvez o médico tivesse razão em dizer que ela não era perfeita. Será que a vida em algum momento é mesmo perfeita?



Fato: O nascimento de Angélica contado por seus pais. A música que tocava, a pergunta ao médico, o buraquinho ao lado da orelha.
História: "nascimento", escrita por uma observadora, anos depois.

sonho


O semblante era alegre. O sono profundo. Naquele lugar, tudo era possível. Sentia-me tão feliz... Era comum sonhar que voava. E em meus voos, conhecia lugares incríveis. Cachoeiras gigantescas, lagos cintilantes e florestas densas.

Sorrisos eram evidentes. Pessoas que caminhavam alegres, comunicativas e colaborativas. Se olhavam, se cumprimentavam, falavam e ouviam com atenção. Não eram capazes de julgar. Simplesmente aceitavam as coisas como são.

Aquele voo trazia tudo que a vida pode oferecer de melhor: a luz, a natureza, todos os seres como iguais. Sim, somente ali conseguia sentir a liberdade. A certeza de que tudo faz sentido, que somos um único ponto de energia interligado à todas as forças. Em nenhum outro lugar fora capaz de sentir-me tão bem.

- Filho da Puta, anda com essa porra desse carro!!

Acordo em sobressalto. Vejo que meu cobertor velho está ainda mais rasgado. O chão frio e sujo do viaduto fede. Muitas pessoas em volta, moradoras de rua, como eu. O lixo se alastra assim como nós. Se é que existe alguma diferença entre nós e o lixo. Olho para a realidade sem ter como fugir, mas com a certeza de que, dentro da minha consciência, tudo é possível. O espírito é livre. E o estado de liberdade natural possível. Para todos.



Fato: Uma mulher dormindo na rua, com um cobertor rasgado, embaixo do viaduto, sorrindo.
História: "sonho", escrita por uma observadora, dias depois