O corpo descia até o chão no balanço do funk. O som era de carros e ônibus, buzinas e gritos de "é isso aí". Os rostos surpresos ou mostrando os dentes em uma risada.
A mulher magra, grávida de uns cinco ou seis meses, com fone de ouvido estilo dj, dança entre a Avenida Rebouças e a Rua Oscar Freire. Não contente em ficar na calçada, ela invadia a rua quando o farol fechava, como se estivesse dando um show.
O que ninguém sabia é que ao contrário do que parecia, nos fones de ouvido da mulher não havia música alguma. Na alegria enérgica de seu corpo, muita tristeza. Tinha sido abusada e gerado uma vida. Por ter problemas psiquiátricos, qualquer homem com má intenção poderia prejudicá-la.
Mulheres arrumadas e emperequetadas indo fazer seu tour consumista pela Oscar Freire, nem notavam a mulher. Homens mexiam com ela, mais uma vez a agredindo. E as pessoas do ponto de ônibus sentiam pena.
A mulher parecia não ver ninguém e não ouvir absolutamente nada. O que ela queria era dançar o corpo até não poder mais para tentar libertar toda tristeza do seu coração. Ela queria ser livre, ser respeitada. Mesmo que fosse só através de seu corpo.
Fato: mulher dança com fones de ouvido na esquina da Rebouças com a Oscar Freire.
História: "corpo de liberdade", escrita por uma observadora dias depois.
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